Tradicional Pó de Talco é um falso amigo

Foto de Esfera Dourada.   O potencial de risco de cancro levou a classe médica ao longo dos anos a desaconselhar o uso do pó de talco.

O inconfundível cheiro intenso e perfumado do pó de talco que durante décadas integrou muitos enxovais de bebés e nos traz à memória recordações da nossa infância ou dos nossos filhos, afinal é potencialmente cancerígeno.

O mítico pó branco é obtido de um mineral filossilicato que se encontra em rochas ultrabásicas, como é o caso da pedra sabão. Só depois de uma rigorosa preparação e testes é que a indústria cosmética o utiliza, mas mesmo assim existe, segundo cientistas e especialistas, risco de provocar doenças degenerativas nos pulmões e nos ovários. Em causa está o asbesto ou amianto que as autoridades dos EUA, desde 1970, impuseram a sua remoção para que pudesse ser comercializado como cosmético. No entanto, investigações posteriores continuam a associar o risco de doenças graves e apesar de cientificamente não existir consenso, os tribunais norte-americanos estão a dar razão às vítimas da Johnson & Johnson. Só em 2017, houve três julgamentos em que foram decretad0s 200 milhões de dólares em indemnizações. Mas há ainda mais 13 mil processos em curso contra a multinacional e seus fornecedores.

Foto de Stephanie Pratt em Pixabay.    Os pediatras há alguns anos que recomendam pomadas para os bebés em vez do tradicional pó de talco.

Na prática, as queixosas, que usaram produtos da Johnson & Johnson para higiene pessoal durante décadas, acusam a empresa de nunca ter revelado nas embalagens dos seus produtos a possibilidade do talco poder vir a desenvolver cancro do ovário. Acusação que ganha ainda mais força porque a empresa sabia dos muitos estudos que alertavam para esse perigo desde a década 70.

Alguns estudos e investigações não encontram nenhuma ligação entre o uso do pó de talco e o cancro do ovário (são estes que Johnson & Johnson usa em defesa da sua reputação), mas outros revelam que mulheres que usem pó de talco regularmente na área genital têm mais 40% de probabilidades de contrair cancro do ovário, segundo a Sky News.

Foto de Bruno Glätsch em Pixabay.   É possível encontrar talco também em produtos de maquilhagem, em desodorizantes, toalhetes ou luvas cirúrgicas.

A Agência Internacional para a Investigação do Cancro, da Organização Mundial de Saúde (OMS), caracteriza o talco como uma substância “possivelmente cancerígena”.

Em Portugal, o grupo de estudo do cancro do ovário afirma no “Manual do Cancro do Ovário”, que “o uso de talco cosmético no períneo, quer em loções de higiene íntima, quer em pensos higiénicos, preservativos ou diafragmas contraceptivos, foi incriminado como possível fator de risco para o cancro do ovário”.

Mas atenção que é possível encontrar talco também em produtos de maquilhagem, em desodorizantes, toalhetes ou luvas cirúrgicas, entre outros. No caso das luvas com talco, foram mesmo proibidas, pela norte-americana Food and Drug Administration, em todos os prestadores de serviços de saúde por “eventos adversos, incluindo inflamação grave das vias respiratórias, reações de hipersensibilidade, alérgicas (incluindo asma), inflamação e danos pulmonares, granulomas e aderências peritoneais.

Foto de Brook Anderson em Unsplash.    Apesar dos alertas, o pó de talco continua ainda hoje a ser usado por muitos desportistas.

O potencial de risco de cancro levou a classe médica ao longo dos anos a desaconselhar o uso do pó de talco por não ser essencial, apesar de muitos especialistas afirmarem que desde 1970 se passou a produzir talco sem asbesto (substância semelhante ao amianto). Por exemplo, os pediatras passaram a recomendar pomadas para os bebés.

No entanto, o pó de talco continua presente no nosso cotidiano, apesar dos alertas de risco. É usado na depilação, como champô contra a oleosidade, como fixador de maquilhagem, para tirar a areia da praia, secar a pele, desodorizante, ajudar a tirar nódoas, reduzir odores. Mas também é usado na fabricação de comprimidos, sabonetes, pastilhas elásticas, para polir os grãos de arroz ou para melhorar a transparência do azeite, entre muitas outras aplicações. E depois há ainda aplicação do talco industrial que é usado nos sectores da cerâmica, papel e celulose, rações para animais (por exemplo, concentrados para suínos), agricultura através de herbicidas, fungicidas e inseticidas, tintas e vernizes, plásticos, fertilizantes, produtos farmacêuticos e veterinários, química e construção civil, entre outras.

Foto de Italiano em Pixabay.       O talco é usado em cerâmica, papel e celulose, rações para animais, herbicidas, fungicidas, tintas e vernizes, plásticos, fertilizantes, produtos farmacêuticos e veterinários ou construção civil.

O alicerce da indústria do talco está assente em três grandes blocos mundiais (China, India e EUA) que respondem por 47,4% de toda a produção global. Só a China, principal produtor mundial, responde por um terço da produção de talco no planeta.

Na Europa, as maiores aplicações de talco são feitas nas fábricas de plásticos e de tintas que absorvem, em conjunto, cerca de 50% do total do consumo de talco.

Se não se quer estar a sujeitar ao risco associado ao pó de talco, então a única maneira de prevenir é verificar bem os ingrediente dos produtos que consome para não ter uma forte exposição e optar por produtos substitutos equivalentes. Não arrisque a sua saúde ou a saúde de sua família, pois o preço a pagar pode ser elevado.

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